Colunista do Mês




Por: José Botelheiro




A Bíblia traduzida do Grego


Vivemos tempos em que a imprensa escrita vê diminuir o seu espaço e influência e em que a próparia literatura como a conhecemos e concebemos corre sérios riscos de perder a actual forma de difusão e mensagem bem como a transmissão, que sempre ocorreu, de geração para geração.
O folhear um livro, sentindo a espessura do papel a acariciar-nos os dedos e o cheiro a tinta, a visualização das cores, formas e conteúdos, são a meu ver, dos raros e únicos prazeres que o ONLINE nunca nos irá proporcionar, porque não é a mesma coisa, por muito moderno, vanguardista e tecnológico que se nos afigure.
O livro mais traduzido de sempre, O Livro dos Livros, mais belo e fascinante de todos os tempos é sem sombra de dúvidas a Bíblia. Nem sempre, ao longo dos tempos foi acessível e de fácil leitura e interpretação para leigos e muito menos para as massas. Somente uma elite de raros privilegiados a ela tinham acesso, por questões culturais, religiosas, sociais, mas também económicas.
 A Bíblia, conjunto de livros reunidos em tomos de inegável valor e interesse que valorizam o mundo antigo, as culturas hebraicas e helénicas, dando-nos uma visão do mundo, das leis, da concepção e origens das sociedades humanas e da evolução dos povos.
Frederico Lourenço, ensaísta, ficcionista, tradutor e poeta, propôs-se a um trabalho a todos os níveis hercúleo e notável. A tradução do grego dos 27 livros que compõem o novo testamento mais os 53 livros do antigo testamento. Partindo da primeira redacção grega do Pentateuco, atribuída a 72 estudiosos judeus, por isso também denominada a Bíblia dos Setenta, deixa-nos um trabalho muito completo, esclarecedor, científico mas sobretudo muito humano. São notas rigorosas e laboriosamente estudadas e esmiuçadas ao longo dos seis volumes que compõem a obra, um prémio e verdadeiro prazer para quem os adquirir e ler.
Adquiri, recentemente, o primeiro volume na FNAC, numa breve passagem por Lisboa. Uma leitura para este Verão que, diga-se, excessivamente duro e penoso, com incêndios devastadores e de tragédias humanas e patrimoniais. Verão e férias habitualmente propícias a uma boa leitura mas que este ano, por razões óbvias, nos motivaram outras preocupações e prioridades.
Este primeiro volume (já saiu o segundo) trata do Novo Testamento e dos quatro evangelhos.
Uma visão enternecedora e muito bela que nos oferecem os quatro evangelistas, da vida e ministério de Jesus, enriquecidas pelas oportunas e esclarecedoras notas do Tradutor.

O primeiro evangelista é Mateus e desde logo o perfile biográfico que nos é traçado pelo autor. Nem esta nem outras traduções da Bíblia nos esclarecem quem de facto é Mateus. Será que é um ex-cobrador de impostos, que deixa a sua actividade para seguir Jesus…É pouco provável mas a mística o encanto e a ilusão instalam-se no nosso subconsciente. A maneira como o evangelista Mateus nos retrata a vida de Jesus, com pormenores e factos que não constam nos textos dos outros evangelistas, sugerem-nos motivos acrescidos de interesse para todo o conjunto e resto da obra ainda por publicar.